Estava com vontade de ir a Paraty desde que, na Semana Santa de 2007, visitei Tiradentes e conheci a Estrada Real, por onde os escravos transportavam o ouro que seguiria para Portugal na época do Brasil Colônia. A cidade mineira era o ponto de partida da rota do metal, que era carregado nas costas por 1.200 quilômetros de caminhos de pedra até sua irmã aqui no Rio de Janeiro e embarcada em navios. A viagem durava cerca de 95 dias. Em 1707, porém, com a abertura de um novo caminho, Paraty deixou de ser o porto de saída do metal, passou a se dedicar à produção de cachaça, ainda teve um boom econômico com o ciclo do café, mas, em 1888, com a abolição da escravatura, a cidade foi simplesmente esquecida, e sua população de 16 mil habitantes reduzida a pouco mais de 600.
Esse esquecimento permitiu que a cidade, com construções que datam do século XVI, mantivesse sua arquitetura preservada, e é exatamente aí que está o seu charme. O redescobrimento só veio nos anos 70, com a abertura da estrada Rio-Santos, permitindo que uma horda de turistas de todas as partes do mundo visitassem a cidade.
Depois dessa pequena aula de história patrocinada pelo Google, vamos ao relato da viagem, uma das melhores que fiz em muito tempo. Recentemente fiz viagens que vão ficar para sempre guardadas na memória, como Cancun, Nova York, Califórnia, Buenos Aires e até o sertão da Bahia, onde fui fazer uma investigação sobre pedofilia para o jornal onde trabalho e conheci uma realidade totalmente diferente. Mas Paraty foi especial.
Aproveitando que minha mulher e meu filho embarcaram para Paris e Amsterdam, resolvi voltar as origens, ou seja, ficar em albergue, gastar pouco e fazer muito. O hostel escolhido foi o Misti Chill, premiado em 2008 com o “Best Atmosphere Award” do site Hostel Bookers. O preço, R$ 135 por quatro noites em um quarto com seis camas, ficou muito abaixo do que eu pagaria em um quarto de pousada, se estivesse viajando com a família (cerca de R$ 200 a diária). Arrumei dois amigos aventureiros, Fábio e Seth, um americano radicado no Rio de Janeiro há apenas dois meses e lá fomos nós.
Por coincidência, viajei para Paraty exatamente na mesma época que estive em Tiradentes, a Semana Santa. Chegamos na quita-feira à noite, após enfrentar uma Rio-Santos marcada pelos recentes deslizamentos de terra causados pela chuva. No nosso primeiro passeio, nos deparamos com a Procissão do Fogaréu, onde todos carregam tochas pela cidade acompanhando uma imagem de Jesus e pessoas vestidas como soldados romanos, simbolizando a prisão de Cristo. A visão da cidade toda apagada, iluminada apenas pelas tochas dos fiéis entoando os seus hinos religiosos realmente é de arrepiar.
No dia seguinte, acordamos cedo para aproveitar o dia, que começou com um mergulho na Ilha dos Ratos e outro na Ilha Comprida. A saída com a operadora Adrenalinha Mergulho, indicada pelos amigos da Xdivers, ficou em R$ 90, mais R$ 20 por peça de equipamento alugado. Para o gringo, que foi apenas acompanhar, o passeio saiu a R$ 60. Na primeira descida, água quente, boa visibilidade e alguma vida marinha, com peixes, moréia, arraia. Na segunda, a visibilidade caiu muito, em alguns trechos, eu não enxergava um palmo na frente do meu nariz, me perdi do meu dupla, mas, mesmo assim, me diverti. Para mim, o importante é estar debaixo d’água, o resto é o resto. Depois do mergulho, ainda apreciamos o passeio de barco de volta a Paraty, observando aquela paisagem que mistura o azul esverdeado do mar da região com o verde das montanhas.
O segundo destino do dia era a praia de Trindade, mas pegamos uma carona com o acaso e acabamos em uma belíssima cachoeira, à beira da Rio-Santos. O fato é que nos perdemos, passamos a divisa para São Paulo e, quando procurávamos um lugar para retornar, demos de cara com a Cachoeira da Estrada, uma queda d’água belíssima a cerca de 30 quilômetros de Paraty. Nem vou descrever o local… uma imagem vale mais do que mil palavras. Assista abaixo o vídeo do primeiro dia de viagem (melhor visto em tela cheia, no modo HD).
Após lavar a alma (e o nosso equipamento de mergulho) na cachoeira, seguimos finalmente para Trindade. A cidadezinha surge, lotada de turistas, hippies e famílias, no meio do nada após cerca de 30 minutos em uma estradinha íngrime, sinuosa, e cercada de verde por todos os lados. É aqui também que começa a trilha para a Praia do Sono, famosa por sua beleza. Pegamos uma mesinha na areia, pedimos algo para beber e comer, e simplesmente apreciamos a bela vista proporcionada por aquela mistura de cores que eu já citei, apenas acrescida dos tons de amarelo do pôr do sol.
À noite, voltamos para mais um passeio pela cidade, entrando nas diversas lojas de artesanato, móveis, objetos de arte e tudo o que você possa imaginar. O jantar acabou sendo um pastel de 30 centímetros, famoso na cidade, que eu e o Seth odiamos, mas que, a julgar pela cara de satisfação do Fábio e pela lotação do lugar, devia estar uma delícia.
No passeio, ainda pudemos ver os passos com suas portas abertas. Esses passos são como pequenos altares, que representam o caminho de Cristo até a crucificação e passam o ano todo fechados, podendo ser vistos apenas durante a Semana Santa.
Veja mais fotos no Flickr do Sem Destino
Leia sobre o segundo dia de viagem a Paraty e assista ao vídeo com o passeio de barco ao Saco do Mamanguá.



























