O Santa Marta foi o primeiro morro do Rio de Janeiro a sofrer o processo de pacificação no Rio de Janeiro. Se antes disso já atraia cerca de 30 turistas por dia, agora, com a segurança da presença policial e da ausência de traficantes armados até os dentes, entrou definitivamente no roteiro turístico da cidade. Parada obrigatória para todos que quiserem não só conhecer de perto a vida dos cariocas além da praia, mas também para os que procuram um ângulo inusitado da cidade, com algumas das mais belas vistas que o Rio tem para oferecer (assista ao vídeo da minha visita à favela no final deste post)

Praça Cantão - Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
Preparando-se para a nova leva de turistas que ameaça invadir o morro (o número passou agora para 200 por dia), o Governo do Estado lançou o mês passado o programa Rio Top Tour no Santa Marta. Com a iniciativa, a comunidade ganhou placas para os turistas, além de guias turisticos e monitores da própria comunidade. Para utilizar, basta chegar no pé do morro e pedir pelo guia, que é gratuito (os monitores aceitam gorjeta, os guias, não).

Subida no plano-inclinado - Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
O passeio começa pelo plano inclinado, uma espécie de bondinho que transporta os moradores para a parte alta do morro (e que também é gratuito). Já no começo do caminho até a última estação, pode ser ver o Rio de Janeiro surgindo conforme o carrinho vai subindo vagarosamente. Chegando lá em cima, saindo bem em frente ao campinho de futebol, você já sente aquele clima de favela. No domingo que eu fui, o churrasco com funk e pagode comia solto, com dois times se enfrentando no campo e as meninas dançando e bebendo do lado de fora. Deu vontade de gritar “de fora” e esperar minha vez na lateral.

Futebol no campinho - Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
Mas continuamos, eu e o monitor Fumaça, “32 anos de Santa Marta”. As novas placas, em inglês e português, indicavam o caminho para a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), um prédio grande bem no alto do morro, e o Mirante do Pedrão, na descida da favela pelo outro lado do morro. Quinhentos metros de caminhada e, por entre as árvores, apareceu uma das mais belas vistas do Rio de Janeiro, com o Pão de Açucar, a Baía de Guanabara, o Centro e a Ponte Rio-Niterói. Paramos alí para conversar um pouco e aproveitei para me inteirar um pouco sobre a história do morro e de Fumaça.

Fumaça no Mirante do Pedrão - Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
Voltamos para dentro da favela para começar a nossa descida, sempre “vigiados” pelo Cristo Redentor, que parece abraçar a comunidade. Lá embaixo, os prédios de Botafogo e o trânsito caótico da cidade, em miniatura. Andar por entre os barracos é se embrenhar em uma realidade que, para muitos de nós, só aparece em filmes. Eu já estive em muitas favelas pode dentro, já fui a baile no Tabajaras, fazia boxe no alto do Pavão-Pavãozinho, mas ali era diferente. Me sentia mais livre por saber que não teria que dar de cara com uma meia dúzia de traficantes armados. A cada virada nas estreitas vielas, ganhava um aceno de cabeça, um “bom dia”, um sorriso. Fui convidado por Fumaça a conhecer sua casa, sua família, a coleção de relógios de sua mãe…

Painel de Michael Jackson por Romero Britto - Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra

Estátua de Michael Jackson no Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
Chegamos então ao ponto alto do passeio, a mundialmente famosa Laje do Michael Jackson. Foi ali que em 1996 o rei do pop gravou o clipe de “They don´t really care about us”, e desde então a comunidade criou uma relação com o ídolo, como se ele tivesse nascido ali, como se fosse parte deles. Um ano após a morte do cantor, o Governo do Estado inaugurou uma estátua de bronze e um painel, feito por Romero Britto, um dos meus artistas favoritos, homenageando-o. Quando eu cheguei lá, a laje estava cheia, com pessoas da própria comunidade tirando fotos com o Michael de bronze, e crianças imitando seus passos de dança.

Cristo Redentor, braços abertos sobre o Santa Marta, Rio de Janeiro - Foto: Pedro Serra
Continuamos nossa descida, passamos por outros tantos pontos de interesse, mas o melhor mesmo é ver o dia a dia no morro, os sorrisos, ouvir as histórias e, claro, desfrutar da vista deslumbrante que o pessoal da comunidade tem. Se você está de viagem marcada para o Rio de Janeiro, separe 2h, 3h para fazer esse passeio inesquecível. Outros morros do Rio de Janeiro, como os já citados Tabajaras e o complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, também estão pacificados e devem começar a oferecer serviços de guia em breve. Fiquem de olho, pois pretendo visitar todos e voltar aqui para contar para vocês.
Assista ao vídeo da visita ao Santa Marta: