Há cerca de nove anos, o israelense Erick Neemann, de 64 anos, vendeu suas coisas e saiu de casa para conhecer o mundo. De lá para cá, foram 14 países visitados. “Os primeiros oito anos eu passei na Ásia: Tailândia, Vietnam, Laos, Cambodia, Índia, Nepal, Cingapura, Hong Kong, Tibet, China, Filipinas, Burma… espero não ter esquecido nenhum. Agora, na América do Sul, eu já visitei a Bolívia e o Peru”, enumera ele, que volta para casa durante um mês por ano para visitar a família e amigos.

Eric em uma das poucas fotos em que aparece
Cinco anos atrás, Eric começou a mandar suas fotos de viagem para os amigos. Aos poucos, a lista foi crescendo, se tornou famosa e já conta com mais de 250 “assinantes”, que recebem dois emails semanais com as imagens. Por ano, ele estima tirar cerca de 15 mil fotos. Viajando sempre com os guias da Lonely Planet à tira-colo, Eric coleta todos os erros, correções e novidades que encontra pelo caminho e envia para a editora. Em uma dessas, chegou a receber um convite para fotografar para a empresa, mas acabou recusando.
Eu primeiro ouvi sobre Eric e sua famosa lista Bonito, através de um casa de holandeses que haviam conhecido o israelense no Peru. Fiquei curioso e, para conhecer um pouco mais sobre a vida deste nômade, entrevistei-o por email para o Sem Destino. Quem quiser entrar na mailing list de Eric, basta enviar-lhe um email. O endereço é eneemann@gmail.com.
Sem Destino: Por que você resolveu deixar tudo para trás e abraçar esse estilo de vida nômade?
Eric Neemann: A resposta não é simples. Foi uma combinação de eventos que acabaram por me fazer escolher esse estilo de vida. Há uns 10 anos, a companhia para qual eu trabalhava foi à falência. Eu tentei por mais de um ano encontrar um novo emprego mas, na minha idade, não consegui nenhum. Israel é um país caro para se viver e eu vi as minhas reservas irem diminuindo rapidamente. Minha filha mais velha (que tem três filhos) sugeriu que eu viajasse para a Ásia, já que é um lugar mais barato e eu gosto de viajar. Eu experimentei e acabei gostando.

Arequipa, Peru - Foto: Eric Neemann
SD: Qual o melhor lugar que você até agora?
EN: muitas pessoas me fazem essa pergunta, mas é muito difícil de responder. Eu sou o tipo de pessoa que encontra boas coisas em qualquer lugar. Um amigo meu, olhando as minhas fotos, disse: “Quando eu estive em Lima, eu achei o lugar feio. Olhando as suas fotos, eu já não tenho mais tanta certeza”. Sendo assim, para dizer que um lugar é “o melhor” depende do seu ponto de vista e mentalidade. Posso dizer que há lugares que eu gosto mais, mas não dizer que são os melhores. Se você encontrar “o melhor” lugar, esse é o lugar que você vai querer ficar para o resto da sua vida.
SD: Como começou a lista de email com as fotos?
EN: Eu não lembro exatamente como começou. Mas acho que alguns dos meus amigos viram as minhas fotos e me pediram para enviá-las por email e a lista foi crescendo a partir daí.
SD: Quantas pessoas estão na lista?
EN: Há cerca de 250 pessoas recebendo as fotos. Até hoje, eu enviei quase 500 emails com fotos. Como eu estou enviando dois emails por semana, isso quer dizer que eu comecei a lista há 250 semanas, o que são aproximadamente cinco anos. Eu nunca havia feito esse cálculo antes e devo dizer que esses números são bem surpreendentes para mim.
SD: E como você escolhe seus destinos?
EN: É difícil responder isso. Eu geralmente decido uma área que eu quero ver, depois busco na internet e falo com vários outros viajantes. Em algum ponto, eu acabo comprando o guia da Lonely Planet e o leio para decidir aonde exatamente eu vou e o que eu quero ver. Geralmente quando eu visito uma cidade, busco conhecer todos os lugares ao redor.
SD: Como é a história de que você foi convidado para ser fotógrafo da Lonely Planet, e por que você não aceitou?
EN: Não é bem assim. A história verdadeira é a seguinte: eu geralmente viajo com os guias da Lonely Plante. Eu encontro algumas correções e novas informações e envio para eles as minhas descobertas. Uma mulher que trabalhava lá e era responsável pelos livros do Extremo Oriente recebeu os meus emails e notou que ao final das mensagens eu tenho um comentário convidando as pessoas a assinarem a minha mailing list de fotos. Ela entrou e, pouco depois, me enviou um email dizendo que minhas fotos eram ótimas e que eu deveria ver as condições para contribuir com o arquivo de fotos da Lonely Planet. Eu dei uma olhada, mas não gostei muito dos termos do acordo.
SD: Que equipamento você usa para as suas fotos?
EN: Como viajante, eu procurava uma câmera que fosse fácil de manusear, produzisse boas fotos, não fosse muito pesada (eu uso apenas uma mão para tirar fotos, pois não tenho parte dos movimentos na minha mão esquerda) e que tivesse um bom zoom (não queria ficar carregando lentes extras. Minha câmera atual é uma Panasonic-Lumix FZ-50. Não foi sempre essa, e eu tive algumas durante o meu tempo viajando, mas eu descobri que essa tem exatamente o que eu preciso.

Paucartambo festival, Peru - Foto: Eric Neemann
SD: Você sente falta de ter uma casa? Qual o lugar que você chama de casa hoje em dia?
EN: Não, eu não sinto falta. Minha casa é a minha mochila, de 20 quilos, e a minha vida é muito simples: sem pagar impostos, água, taxas, eletricidade, etc. Eu não tenho uma TV ou um carro e não acumulo coisas como a maioria das pessoas fazem. Quando eu viajo, eu não compro nada a não ser que eu jogue algo fora da minha mochila. Chamar um lugar de “casa” significa que a pessoa está se sentindo bem naquele lugar. É um lugar que, quando você chega, as pessoas estão rindo para você, te dão boas vindas, abraçam. Há alguns lugares assim para mim, e eu gosto de manter essa lista para mim mesmo, sem divulgá-la.
SD: E quando você pretende visitar o Brasil?
EN: Eu achei que fosse visitar o Brasil desta vez, mas eu gastei muito mais tempo do que o planejado no Peru por causa dos festivais. Além disso, muitos outros viajantes descreveram o Brazil como um lugar muito caro para se visitar, então eu decidi adiar a minha visita ao país até eu ter mais dinheiro.



















