Sobre manifestantes e vândalos: a marcha dos cem mil no Rio de Janeiro

By | June 18, 2013 at 4:50 pm | 4 comments | Rio de Janeiro | Tags:

Cem mil pessoas em uma festa democrática. O aumento das passagens uniu todo mundo, mas cada um ali tinha um motivo diferente para protestar. PEC 37, corrupção, custo de vida, marido infiel, dedo do pé encravado… não importava. O bonito é que todos foram para a rua demonstrar a insatisfação. Fiquei emocionado de ver a Rio Branco totalmente tomada por manifestantes. Claro, tinha uma galera do PSTU e do PSOL que não entendeu que o movimento é apartidário. E lá estavam eles com suas bandeiras. Muitos reclamaram e gritavam, mas a festa era democrática e as bandeiras continuaram.Manifestação no Rio de Janeiro

Manifestação no Rio de Janeiro

Em todo o trajeto, não vi um policial, um escudo do batalhão de choque. Paz e alegria no rosto de todos. Pessoas se abraçando, algumas famílias com crianças, trabalhadores nos prédios jogando papel picado, piscando as luzes e apoiando como podiam. Chegamos à Cinelândia e vi uma das cenas mais bonitas do protesto: uma bandeira gigante do Brasil esticada na escadaria do Theatro Municipal, com todo mundo cantando o hino nacional. Em mim, o sentimento de estar participando de um momento histórico. Lembro de, quando pequeno, ouvir a multidão gritando Diretas Já sem saber o que queria dizer. Participei de algumas manifestações durante o impeachment do Collor. Mas agora estava ali registrando aquele momento que o meu neto com certeza vai estudar nos livros de História.

Manifestação no Rio de JaneiroManifestação no Rio de Janeiro

Mas a festa foi abruptamente interrompida por pedras, morteiros, pessoas com o rosto escondido, revoltadas. Ouço muita gente dizer que os vândalos não representam o movimento, que são infiltrados, paus mandados e tal. Meu pensamento é outro: esse movimento não tem uma cara, não tem líder, ele reúne esquerda e direita, gays e homofóbicos, cristãos e ateus… um balaio de gatos que representa uma população revoltada. No meio disso, existe esse 1% de pessoas que acreditam que apenas com violência conseguirão mudanças. Eles são poucos, mas fazem muito barulho. E sim, eles fazem parte do movimento tanto quanto o playboy que chega ao protesto de taxi, tanto quanto o esquerdista que carrega bandeiras do PSTU… Os vândalos representam uma parcela da população que pensa exatamente igual a eles.

Manifestação no Rio de Janeiro

Quando saí da Cinelândia e cheguei ao prédio da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, o que eu vi foi uma praça de guerra. Manifestantes jogavam pedras nas vidraças, incendiavam e quebravam carros, atiravam rojões contra um grupo de policiais acuado que tentava proteger o prédio. Vi uma cena bizarra: um grupo de mais de dez policiais, com umas seis viaturas, estava encurralado. Sem gás de pimenta e balas de borracha, fizeram uso de armas de fogo. Um policial à paisana descarregou um pente de fuzil para o alto. Se desesperou quando acabaram as balas e descarregou um pente de pistola. Enquanto isso, outros policiais entravam nas viaturas e fugiam. Quando acabou a munição, os policiais sairam correndo, fugindo, com muito medo.  Alguns, feridos, se refugiaram dentro do prédio da Alerj.

Manifestação no Rio de JaneiroManifestação no Rio de Janeiro

Os manifestantes se sentiram fortes, e começaram a usar grades para tentar arrombar o portão e invadir o prédio. De dentro, os policiais atiravam para impedí-los. Enquanto uma dezena praticava esses atos de vandalismo, uma centena vaiava e mostrava desaprovação, mas ninguém teve coragem de ir contra esses radicais. Ainda bem, porque se a polícia armada não conseguiu dissuadí-los, não seria um grupo de pacifistas que iria conseguir.

Manifestação no Rio de Janeiro

Já tinha visto o suficiente. Hora de sair de lá e pensar em tudo o que aconteceu. Meu sentimento naquele momento era uma mistura de adrenalina, felicidade, orgulho, tristeza e decepção. Uma festa linda que virou uma guerra. Mas vamos continuar. Quinta-feira tem mais.

4 Comentários

  1. Rafael Carvalho (1 year ago)

    Muito legal o texto, Pedro. Eu que não estava aí, mas na rua aqui em São Paulo, na primeira manifestação totalmente pacífica, senti isso ao saber das notícias de outros lugares. Mas o que importa é que o mar de gente foi em paz e não é um grupo isolado que pode sujar nossa bandeira. Abração, Rafa

  2. Natália M Gastão - Ziga da Zuca (1 year ago)

    Ótimo texto! Passou bem a emoção do momento!
    Quita-feira estarei lá!
    Beijão! =)

  3. Lucia Freitas (1 year ago)

    Querido,
    Avisa para a galera que o Marco Gomes colocou um mapa colaborativo dos protestos no ar. Pode ajudar pra evitar os violentos, para a gente organizar melhor…
    aqui: http://j.mp/protestosbrmapa

  4. gleiber (1 year ago)

    Fácil entender os seus sentimentos, Pedro. Acho que esse sentimento é comum a todos os brasileiros. A mistura da euforia da esperança com a decepção com o rumo que as coisas tomam. Mas a gente é brasileiro e não desiste nunca. Abração, véi.

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