Um dia de protestos no Maracanã

By | June 17, 2013 at 12:54 am | 8 comments | Rio de Janeiro | Tags:

“Domingo, eu vou ao Maracanã…” mas diferente da clássica música que toca em todos os bailes de carnaval cariocas, eu não vou “torcer para o time que sou fã”. Em vez de “foguetes e bandeiras”, levo minha máquina fotográfica para registrar tudo o que acontece em mais um dia de manifestações pelo Rio de Janeiro. Apesar de todo mundo ter acompanhado pela televisão pelo menos alguma coisa sobre isso, faço questão de explicar um pouco, pois acho que nem todo mundo entendeu. A manifestação começou por causa de R$ 0,20, mas hoje ela é mais do que isso. É um grito de insatisfação de um povo que está cansado de engolir sapos e mais sapos. Tinha gente de direita, de esquerda, playboys, comunistas, nerds e surfistas. Só não vi (para a minha alegria) bandeiras de partidos. Sim, éramos poucos. Cerca de 2 mil segundo meus cálculos e cerca de 500 segundo a imprensa (confesso que não tenho um olho bom para essas coisas, mas 500 é sacanagem).

Manifestação no Rio de JaneiroManifestação no Rio de Janeiro

Enquanto famílias entravam no estádio para assistir à vitória da Itália sobre o México, o grupo se aglomerava no acesso ao estádio, cantando e gritando palavras de ordem, portando cartazes e bandeiras, fazendo o máximo para não estressar a polícia. Eles pediram para que a manifestação mudasse de lugar, liberando as pessoas para entrarem no estádio sem problemas. Nós saímos, atravessamos a pista, começamos a andar em outra direção quando, de repente, fomos barrados. Negocia daqui, conversa de lá, ameaças dos dois lados e a polícia irredutível. Mesmo assim os manifestantes se seguravam. Queriam evitar confrontos. Neste momento, se a polícia fosse esperta, teria definido um trajeto e aberto caminho. Tenho certeza que, do jeito que estavam os ânimos naquele momento, todo mundo teria seguido pacificamente. Mas eles não queriam isso. Nos impediam de seguir, mas também não podíamos voltar.

Manifestação no Rio de Janeiro Manifestação no Rio de Janeiro

Com o Batalhão de Choque e a cavalaria na nossa frente, demos meia volta, voltamos ao ponto de partida e os ânimos se exaltaram. Os manifestantes ainda evitavam o confronto, mas a polícia já demonstrava que não teria jeito. Ou saia todo mundo dali e ia para casa calado, com o rabo entre as pernas e sem reclamar, ou eles iam para o ataque. E foi o que aconteceu logo depois. Choque em formação. Uns dois avisos pelo megafone: “senhores, vocês têm 40 segundos para desobstruir a área”. A primeira bomba de gás lacrimogêneo. Correria. Sou completamente contra a violência. Um cara da paz. Mas quando vi essa agressão sem provocação, minha vontade era pegar uma pedra e jogar nos policiais. Ou, quem sabe, quebrar a primeira coisa que eu visse… e aí passei a entender melhor os “vândalos” de protestos anteriores. É a velha questão da 3ª Lei de Newton: “toda ação gera uma reação contrária e de igual intensidade”. Vi pessoas jogando pedras na polícia, mas era uma meia dúzia de perturbados que não conseguiram se segurar.

Manifestação no Rio de Janeiro

Manifestação no Rio de Janeiro
manifestacao-rio-de-janeiro-7

A polícia desempenhou bem o seu papel de impedir que as pessoas se manifestassem. No primeiro ataque, separou a manifestação em dois grupos. Cada um de um lado dos trilhos do trem. Logo depois, fechou uma das únicas passagens de um lado para o outro. Do meu lado, atacava qualquer grupo que se formasse com mais de 10 pessoas. Era o pessoal se aglomerar que lá vinha o choque com suas bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Os manifestantes ainda tentavam reagrupar. Chegaram a conseguir fechar a pista mais algumas vezes, mas o Choque parecia onipresente. Também, acho que tinha mais policiais do que manifestantes por lá. Era uma quantidade absurda.

Manifestação no Rio de JaneiroManifestação no Rio de Janeiro

Do outro lado da linha do trem, a polícia foi cercando os manifestantes até encurralá-los dentro da Quinta da Boa Vista. Nos acessos, a polícia formou um cordão polonês, impedindo a saída. Foi preciso uma negociação de “rendição” para que os manifestantes pudessem sair. Eles sairam em silêncio, com as mãos para cima, e se dirigiram diretamente para a Leopoldina, sem poder atravessar de volta a linha do trem, escoltados por uma penca de policiais do Choque. Nesse momento, eu já tinha vido tudo o que tinha que ver. Não acompanhei a manifestação até a Leopoldina. Voltei para a minha casa para colocar as fotos no ar e tentar sensibilizar as pessoas de que a internet é um ótimo veículo para protestar, mas que as coisas só começam a mudar quando saímos para as ruas.

Manifestação no Rio de Janeiro

Manifestação no Rio de Janeiro Manifestação no Rio de Janeiro

maracanã rio de janeiro

8 Comentários

  1. Lucia Freitas (1 year ago)

    Pedro!!!
    Obrigada, querido. Muito obrigada por ir, por fotografar, por nos contar.
    Tô aqui lembrando do primeiro ano de jornalismo (melhor não dizer o ano) em que a gente conversava sobre o que é verdade?
    Porque, sim, jornalista existe para mostrar a verdade, esta entidade multifacetada pelos olhos dos sujeitos…
    E sem a tua voz, iria faltar um pedaço IMPORTANTÍSSIMO
    OBRIGADA!!!

  2. Dani Polis (1 year ago)

    O mais engraçado: quem estava lá não ouviu/viu NADA.
    Eu fui, estava no portão E/F, e nada foi visto e ouvido! Soube de tudo por causa do meu pai, que ligou preocupado. Ai no final vi uma galera revistada e uma galera com cartazes.

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  7. Sol (1 year ago)

    Obrigada por nos contar a verdade, já que a tv não conta.
    Hoje acontece a manifestação organizada na minha cidade…
    …amanhã será a minha vez de contar!!!
    Bj

  8. jonathan franklin (1 year ago)

    Thanks for helping me last night when i got tear gassed. I think you filmed the whole episode. Speak to you today

    Jonathan Franklin

Comments

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