Um dia no Lixão de Gramacho

By | May 13, 2012 at 2:20 am | 13 comments | Rio de Janeiro, TV Sem Destino | Tags:


Com 1,3 milhões de metros quadrados e recebendo cerca de 8 toneladas de lixo por dia, o Lixão de Gramacho é o maior aterro sanitário da América Latina. Lá, trabalham cerca de 1700 catadores de lixo que, todos os dias e noites do ano, garimpam o local em busca de sustento. Você deve estar se perguntando por que um blog de viagens está escrevendo sobre isso… pois bem, quando eu viajo, uma das minhas maiores motivações é conhecer lugares, pessoas e histórias diferentes. Quero conhecer o que o mundo tem de melhor (e de pior) para oferecer. Visitar o lixão foi mais um episódio nessa minha busca, mas um que realmente mexeu comigo.

Conheça a realidade de alguns dos catadores do lixão:

Ver pessoas revirando o lixo em busca de algo que foi descartado, mas que para eles pode virar um tesouro, ou pelo menos o almoço do dia seguinte, é algo que me fez repensar as minhas necessidades e a forma com que lidamos com o que temos. Muito de nós já viu o lixão cenográfico da novela ‘Avenida Brasil’ várias vezes, ou mesmo assistiu aos ótimos documentários ‘Estamira’ e ‘Lixo Extraordinário’, filmados em Gramacho, mas estar lá e ver aquilo de perto, conhecer as pessoas, sentir o cheiro, é algo totalmente diferente. Vou tentar passar um pouco desse sentimento para vocês, mas realmente só estando lá para entender.

Conversei muito com os moradores e trabalhadores do lugar, entrei em suas casas, brinquei com as crianças, ouvi suas lamentações. Por eu estar sempre com uma câmera na mão, invariavelmente sou confundido com um salvador da pátria que vai fazer com que suas reclamações sejam ouvidas por alguém que vai mudar alguma coisa. Infelizmente, não sou nada disso. Sou apenas um blogueiro/video maker querendo conhecer uma realidade diferente da minha. Assistir àquela situação de crianças doentes, sem condições de higiene, dormindo em casas de madeira, sem acesso a educação, entretenimento, saúde… sem poder fazer nada, me deixou triste. O melhor que eu podia fazer era desempenhar meu trabalho, de registrar e difundir as histórias, para que cada vez mais pessoas conhecessem essa realidade que, afinal não está tão longe de nós (pelo menos geograficamente). Uma das coisas que me chamou atenção é que o lixão fica às margens da Baía de Guanabara, com uma bela vista que abrange os dois maiores cartões postais do Rio de Janeiro: o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Todos os dias, milhares de turistas devem ver, à distância, o aterro sanitário, sem imaginar o sofrimento diário daquelas pessoas.

Barracos de catadores próximo ao lixão - Foto: Pedro Serra

Família de catadores - Foto: Pedro Serra

Fui convidado a conhecer alguns dos barracos das famílias que moram nos arredores do lixão. Casas de madeira abafadas, sem janelas, sem água corrente ou esgoto. As crianças brincam em meio ao lixo, com o esgoto correndo a céu aberto por entre as casas. Me emocionei ao ver o sorriso das crianças com as roupas do meu filho que levei para doar. Uma briga por quem ficaria com o casaquinho, o colete, a calça… em menos de 5 minutos, os dois sacos de roupas que eu levei já haviam sumido para dentro dos barracos. As crianças agoram pediam brinquedos. Fiquei uns bons 10 minutos conversando com uma criança que tinha como brinquedo favorito uma escova de dentes elétrica que seus pais haviam encontrado na “rampa” (como eles chamam o local onde o lixo é despejado). Fiquei pensando nos dois caixotes de brinquedos que meu filho tem em casa, com bonecos que piscam, falam, soltam raios e só faltam voar.

Garoto com sua escova elétrica: apesar de tudo, sorrisos - Foto: Pedro Serra

Alegria com as doações levadas por mim - Foto: Pedro Serra

Nada como fazer uma criança sorrir - Foto: Pedro Serra

Quando fui conhecer a “rampa”, a sensação de estranhamento e reflexão aumentou. Uma montanha de lixo sendo revolvida por tratores enquanto dezendas de pessoas brigavam com os urubus para encontrar algo que garantisse o alimento do dia seguinte. Estava acompanhando o repórter Antero Gomes, do jornal Extra, enquanto ele apurava uma matéria igualmente impressionante: nada menos do que 78 dos catadores do lixão não têm documento algum. Além do desprezo da sociedade, eles ainda não são ninguém para as autoridades. Pessoas sem identidade, que não podem ter um emprego de carteira assinada, ir ao médico, estudar.

A "rampa" onde catadores garimpam seu sustento - Foto: Pedro Serra

Ao comprar o jornal na semana seguinte, a foto da capa com a matéria trazia uma coincidência impressionante. O garoto de uma das famílias entrevistadas por Antero vestia uma camisa da escolinha onde meu filho estudava, provavelmente doada ou descartada pelos pais de algum colega do meu filho. Não milito contra o consumismo, globalização, mercado financeiro e afins… mas aquela cena realmente me deixou pensando. Tanto que fiz questão de incluir uma pequena ação social no último evento que organizei, e a ideia é aos poucos ir fazendo mais. Estou planejando voltar lá com mais doações para as família, que em breve perderão o sustento por causa do fechamento do lixão. Quem quiser ajudar, é só deixar um recado nos comentários que pensamos em uma forma de fazer algo por esse povo que precisa tanto.

Essa realidade não está tão distante de nós... ao fundo, pode-se ver o Pão de Açucar e o Cristo Redentor - Foto: Pedro Serra

Quem veio ao blog buscando relatos felizes sobre viagens, desculpe pelo choque de realidade. Mas o mundo é muito mais do que praias paradisíacas de areias brancas e água azul turquesa.

jardim gramacho, rio de janeiro

13 Comentários

  1. Lillian Brandão (2 years ago)

    Mais um vídeo e texto emocionantes!
    Parabéns, Pedro!

    Abraços,
    Lillian.

  2. Lucia Freitas (2 years ago)

    PEDRO!!!
    Amei, que post emocionante (não dá pra dizer lindo, né?! Olha, eu posso te ajudar, sim. Vamos juntar a mulherada do LuluzinhaCamp e ajudar a melhorar o Gramacho!!! Tem muita gente aí no Rio que pode sim ajudar.
    Vamos agitar.
    beijo enorme

  3. Oscar | MauOscar.com (2 years ago)

    Muito triste essa realidade que muitos de nós faz de conta não existir…

    Ótimo trabalho!!! Ia até sugerir fazer uma versão em inglês ou só com música e imagens que seria ótimo para mostrar para todo mundo a realidade de uma cidade que daqui 4 anos sediará uma olimpíada em que serão gastos milhares de milhões de reais e com menos de 0.5% de tudo que vai ser gasto poderia transformar para sempre a triste realidade destas pessoas

    Abraço

  4. Fábio Lima (2 years ago)

    Pedrão, mais uma vez seu trabalho com video ficou muito bom! O tema é delicado e bem diferente do que estamos acostumados a postar em nossos blogs. Mas concordo com você que as vezes é preciso dar esse “choque de relidade”para mostrar não só as belzas das cidades que visitamos, mas também as dificuldades que existem, para de alguma forma tentar ajudar e trazer algo positivo. Até mesmo o turista, pode ajudar em causas como esssas e deixar um pouco de ajuda nas cidades que oferecem tantas coisas em suas visitas! Parabéns pelo trabalho!

  5. Mauricio Oliveira (2 years ago)

    Nossa, Pedro, sem palavras para me expressar.
    Quero parabenizar mais uma vez pela super matéria.
    Conte comigo para tocar qq projeto desse tipo.
    Abs

  6. Inah de Bragança (2 years ago)

    Parabéns!!!
    A realidade é dura e dói. Bjos

  7. Erika Marques (2 years ago)

    Desculpe o clichê, mas a realidade é nua e crua!
    Palavras tocantes e comoventes que nos fazem refletir sobre a nossa postura perante a esta situação!

    No município em que trabalho há um aterro sanitário. A secretaria de saúde promove várias ações com os catadores de lixo, seja de forma educativa, como no manuseio do lixo e material reciclável, ou disponibilizando EPI´s ( equipamentos de proteção individual), ou até oferecendo cuidados com a saúde. Isto não resolve os problemas, mas ameniza! O Rio faz algo parecido?

    Parabéns pelo texto!

    Beijos

  8. Clarissa Donda (2 years ago)

    Belíssimo post (porque para ser belo o que conta é a mensagem e não o lugar, né?)

    De fato, a realidade é triste, e é aqui do lado. E o pior é que o fato de isso existir não choca mais – ou choca, na hora em que você vê, mas no minutio seguinte a gente já tá pensando em outra coisa, e deixa para lá porque “o mundo é isso mesmo”…

    É um lugar interessante (e desafiador) para um RAID, não? E cada um, ao invés de levar um quilo de alimento, leva uma cesta básica, uma sacolona de roupas e brinquedos… O valor da brincadeira de tirar fotos pode até aumentar – mas a ajuda para as crianças de lá, também!

    Excelente post. Parabéns!

  9. Eriberto Almeida Jr (2 years ago)

    Muito bom Pedro, o importatnte é realmete o que já foi dito por você “que cada vez mais pessoas conhecessem essa realidade”. Somente assim podemos infuenciar governo, pessoas e instituições para que algo seja feito.

    Parabéns pelo trabalho!

  10. Ana Luiza Carmo (2 years ago)

    Oi Pedro,

    muito bonita sua iniciativa. Fiz um trabalho uma vez no atendimento das crianças no hospital pediátrico do Fundão e, de fato, é impressionante como as crianças sempre nos ensinam a ter alegria em todo e qualquer momento. Costumo fazer doações durante o ano (normalmente 2x) de roupas e calçados antigos – não estragados, diga-se de passagem. Acho que seria interessante organizar doações desse tipo (de brinquedos, inclusive).
    Quanto à questão da falta de documentação dessas pessoas, por serem muitas (78, como você disse), acho que valia um esforço junto às campanhas de ação social da prefeitura para que regularizassem a situação deles. Vou entrar em contato com os telefones que tenho disponíveis para tentar alguma resposta e aviso por aqui…

    Mais uma vez, parabéns pelo trabalho!

  11. Natália M Gastão - Ziga da Zuca (2 years ago)

    Excelente post Pedro!
    Parabéns pela sensibilidade em escrever tão bem esse duro relato.
    Adorei a sugestão da Clarissa de fazer um Raid com a cesta básica lá. Caso não role o Raid, tô dentro na cesta básica ou de qualquer outra ação. É muito pouco, eu sei, mas pode ser o início de algo.
    Obrigada por compartilhar isso conosco!
    Beijinhos!

  12. Julianna (2 years ago)

    É Pedro, muito bom mesmo. O assunto é difícil, são pessoas que não têm nada e isso mobiliza muita gente para ajudar mas como eles não têm nada também fica difícil de ajudar (estranho essa frase mas é verdade) se não têm documento, não têm como conseguir bolsa família ou fazer cursos profissionalizantes, o que também é dificultado pela falta de escolaridade. Além disso existem aspectos psicológicos envolvidos, são muitas histórias de exclusão, rejeição, essa auto-imagem depreciada é internalizada e cristalizada e poucos conseguem pensar e agir além da catação do dia para garantir a janta da noite, Então até a profissionalização dentro da atividade de catação é difícil, a articulação entre eles, é uma atividade muitas vezes solitária (ao invés de solidário), competitiva, eles são desconfiados e com razão… espero que as autoridades, governo, ongs, empresas e catadores consigam se articular para garantir que as pessoas saiam do lixão para uma vida nova, melhor.

  13. Ana Maria (2 years ago)

    Olá, gostaria de saber qual a situação das famílias após o fechado do lixão?
    Elas têm recebido alguma ajuda do Governo. Quais as maiores necessidades
    dessas famílias. Como podemos ajudar? Favor entrar em contato comigo. Grata.

Comments

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