A aventura de estudar cinema em Cuba

By | April 4, 2012 at 1:00 am | 11 comments | Cuba | Tags:

Há um ano embarquei para uma das maiores experiências da minha vida: estudar cinema em Cuba. Quando contava da minha ideia para as pessoas, boa parte me olhava com ar de incredulidade, afinal Cuba não é muito conhecida como um celeiro de cineastas e a questão de ser uma ditadura, comandada com mãos de ferro pelos irmãos Castro, significa que este não é um lugar com muita liberdade de expressão, onde a livre troca de ideias possa gerar filmes muito criativos. Exatamente por isso, a minha escolha pela oficina de produção de documentários também não foi muito bem vista.

(Click here to read the English version)

Viva la Revolución - Foto: Pedro Serra

 

Acontece que a Escuela Internacional de Cine y Television, a Eictv, ou simplesmente La Escuela, é muito conceituada e atrai todos os anos centenas de estudantes e professores dos quatro cantos do mundo, inclusive uma horda de brasileiros que, depois dos espanhóis, são maioria na escola. Não é a toa que o segundo idioma oficial da escola é o portunhol. Só para dar uma ideia, na minha turma éramos quatro brasileiros, seis espanhóis, um Italiano (mas que morava em Barcelona), uma Moçambicana (mas que tinha morado muitos anos no Brasil), uma francesa e um cubano. Todos amigos que levo até hoje e que vocês podem conhecer também no vídeo do post da minha visita a Laguardia, no Pais Vasco, em 2011.

Alunos do curso de documentário durante as gravações em Bejucal - Foto: Pedro Serra

Portuñol o muerte! Foto: Pedro Serra

Mas como é estudar documentário em uma escola de cinema em um país socialista? Bom, digamos que, como tudo em Cuba, é um pouco diferente. Mas antes que eu explique mais, vamos primeiro entender o que uma escola de cinema está fazendo no meio da ilha de Fidel. A ideia original da criação da EICTV surgiu de nada mais nada menos que o escritor Gabriel García Márquez, o poeta e cineasta argentino Fernando Birri e o realizador cubano Julio García Espinosa, que, com o apoio do governo cubano, fundaram a escola em dezembro de 1986, primeiramente como uma filial da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano. O objetivo era criar a “Escuela de Tres Mundos”, para os estudantes da América Latina, África e Ásia. Estes três mundos acabaram se transformando em “Todos los Mundos”. Em uma mesma mesa de jantar, era possível estar sentado ao lado de pessoas do Zimbábue, da Alemanha, Russia, Suiça e por aí vai. Em um passeio pela escola, é possível notar a sua importância no cenário mundial através das frases escritas nas paredes por personalidades do cinema que passaram por lá. Há recados de Steven Spielberg, Nelson Pereira dos Santos e outros cineastas famosos.

Uma das frases espalhadas pela escola - Foto: Pedro Serra

A escola fica localizada em San Antonio de Los Baños, a cerca de 1 hora de Havana. Os cursos são divididos em Talleres (ou oficinas), com duração entre duas semanas e um mês (como no meu caso), Altos Estudios, com duração de cerca de três meses, e Cursos Regulares, com duração de três anos. Todos os alunos moram dentro do próprio campus da escola, que possui cerca de cinco prédios de alojamentos. O meu alojamento era um apartamento de três quartos, sala, cozinha e banheiro que eu dividia com os outros cinco homens do meu curso. As mulheres ficaram divididas em outros dois apartamentos iguais. Mesmo sem muito luxo, os apartamentos eram espaçosos e confortáveis (ainda mais para os padrões cubanos).

(Leia também: Cuba, modo de usar #1 – Dinheiros e banheiros)

Sala do meu apartamento - Foto: Pedro Serra

Vista da janela do meu quarto - Foto: Pedro Serra

Anoitecer sobre os dormitórios da escola - Foto: Pedro Serra

Belo pôr do sol em San Antonio de Los Baños - Foto: Pedro Serra

A escola é mesmo um oasis internacional em um país onde boa parte dos banheiros não têm água água corrente e os prédios e casas estão caindo aos pedaços. A estrutura do lugar realmente me impressionou. Me fez até pensar que ali já havia sido um centro de treinamento para atletas olímpicos, até que eu descobri que tudo realmente havia sido construido pensando-se no bem estar dos alunos, ainda mais daqueles que passam ali três anos de suas vidas (algo que para mim é simplesmente inconcebível). A Eictv possui três quadras de basquete, duas de vôlei, duas de tênis, um campo de futebol de tamanho oficial, academia de ginástica e uma piscina olímpica (olímpica mesmo, com 50 metros. Fui apostar uma volta com um amigo meu e nenhum dos dois chegou até o final). Além disso, há um cinema, diversas salas de aula, estúdios, ilhas de edição, um bar (o famoso El Rapidito), e um refeitório.

A piscina olímpica da escola - Foto: Pedro Serra

Partida animada de vôlei entre os alunos - Foto: Pedro Serra

Intervalo entre as aulas - Foto: Pedro Serra

Bom, o refeitório… acho que o meu maior problema em estudar na Eictv por três anos ia ser ter que comer todo dia praticamente a mesma comida. Arroz, arroz e arroz… no almoço e no jantar. Um dia com carne, outro com frango, outro com… bolinhos de arroz. Isso mesmo, arroz com bolinho de arroz. Mas, apesar da pouca variedade a comida não era ruim. A salada, toda com produtos cultivados na própria escola, e o café da manhã, eram a melhor parte. Para quem não aguentasse mais o variado cardápio, ou perdesse o horário das refeições, o Rapidito era a solução. Não que o cardápio fosse mais variado (apenas uma opção de sanduiche… o bocadito de jamon con queso), mas pelo menos não tinha arroz. Outra opção era comprar comida e estocar no apartamento, que tinha geladeira e fogão elétrico.

Fila no refeitório - Foto: Pedro Serra

Parte da "pequena" horta da escola - Foto: Pedro Serra

Não espere, porém, conseguir contar a todos os seus amigos no Facebook sobre suas peripécias na escola. A internet até existe, mas é lenta… lentíssima. Há computadores em algumas salas de aula, que geralmente são mais rápidos. A lan house da escola é a que tem os computadores mais lentos. Você coloca a senha do gmail, sai para tomar um café, e volta depois para checar os emails. Há ainda alguns pontos de internet com fio espalhados pela escola, mas esses são disputados a tapa pelos alunos. Não é difícil fazer ligações diretamente da escola, e há telefones em todos os apartamentos. Mas sai mais barato pedir para ligarem do Brasil.

Um dos pontos de acesso à internet - Foto: Pedro Serra

Com quantos Macs se faz um documentário? - Foto: Pedro Serra

Tanto as refeições quanto a hospedagem estão inclusas no preço do curso. No meu caso, foram 1,6 mil Euros pelo curso de um mês. As oficinas são, relativamente, os cursos mais caros. É com eles que a escola realmente faz dinheiro para manter sua estrutura e poder cobrar menos pelos outros cursos e pelo valor subsidiado para os cubanos. Se não me engano, o cubano que estudou conosco pagou menos de 100 euros para estudar lá (levando-se em conta que o salário médio de um cubano é de 15 Euros por mês, não é tão barato assim). Quanto à passagem, há um desconto especial na Cubana de Aviación para os alunos da escola. Paguei US$ 900 pelo ticket, enquanto o preço normal, se não me engano, estava em US$ 1,2 mil. (para saber sobre o uso do dinheiro cubano e suas peculiaridades, leia o post ‘Cuba, mode de usar #1 – dinheiros e banheiros‘)

Ilha de edição, onde passamos algumas noites em claro - Foto: Pedro Serra

Amanhecer na escola após uma noite de trabalho - Foto: Pedro Serra

No Taller de Documental, as aulas aconteciam de segunda a sexta de 9h às 22h, com intervalos para o almoço e jantar, e aos sábados pela manhã, fora as noites que viramos editando material. Uma escapada aqui e outra ali me permitiram conhecer boa parte de Havana e as saídas para a parte prática do curso, que consistia na gravação de um documentário sobre uma das mais tradicionais festas do país, me permitiram conhecer Bejucal, uma pequena cidade a cerca de 30 minutos da escola, onde todo ano há uma competição entre dois grupos, um vermelho e um azul, que fazem um caminhão parecido com um carro alegórico de escola de samba. É uma mistura entre o carnaval e a festa de Parintins.

Gravação de documentário em Bejucal - Foto: Pedro Serra

Entrevistando os bejucalenses - Foto: Pedro Serra

O transporte entre a Eictv e Havana é gratuito, com ônibus chegando e saindo pela manhã e no final da tarde. Nos domingos ainda há um horário mais tarde. Viajar nesses ônibus já é uma aventura. Boa parte deles são veículos velhos, doados de outros países (um deles ainda trazia na porta o logo da prefeitura de Sevilha). A lotada para Havana vivia cheia, e era comum pessoas sentando no chão ou fazendo o percurso inteiro em pé. Além disso, em dias mais frios, quando todas as janelas estavam fechadas, a intoxicação pela fumaça era certa. Cheguei passando mal na escola umas duas vezes.

Ônibus com o logo da prefeitura de Sevilla - Foto: Pedro Serra

Ônibus para Havana - Foto: Pedro Serra

Mas nem só de estudos vive a galera que opta por estudar nesse oasis cubano decicado à sétima arte. As festas de quinta-feira no El Rapidito bombam ao som de salsa, rumba e, principalmente, reggaeton… o equivalente cubano da música baiana. Claro que, com a quantidade de brasileiros estudando por lá, não é difícil escutar samba, axé, forró e outros ritmos brazucas, mas o tal do reggaeton domina a cena da balada na Eictv. Não se impressione se você estiver parado, na sua, e de repente uma bunda aparecer chacoalhando convidativamente na sua frente. O pessoal lá gosta de dançar junto, de preferência de maneira bem sensual e esfregando as partes. Para mim, acostumado ao estilo de dança ‘cada um na sua’, foi um choque à princípio. Mas depois acostumei e entrei na onda. Durante o fim de semana, geralmente a escola fica mais vazia, pois muitos alunos saem para conhecer outras cidades. Mesmo assim, não é difícil encontrar festas às sextas-feiras, principalmente quando algum curso está terminando. Para os que, como eu, não tem muita intimidade com a segunda arte (também conhecida como dança), há aulas de salsa durante a semana. Há ainda aulas de ioga, boxe e outras atividades. Ah, e massagem também… que é gratuita, mas convém deixar uns 10 Euros para o cara. Há ainda o doutor Máximo, diretor médico da escola, que é responsável, entre muitas outras coisas, por sessões de medicina tradicional e faz um trabalho de alinhamento de chacras. É ele também que faz a palestra inicial para os alunos da escola, falando sobre os males do álcool, o uso de camisinha e otras cositas más. Imperdível e divertidíssima

Estudantes reunidos no El Rapidito - Foto: Pedro Serra

A famosa palestra do doutor Máximo - Foto: Pedro Serra

Mas e o curso? É bom? Vale a pena? A resposta é um sonoro sim… Geralmente os professores são pessoas que estão inseridas no mercado e têm grande conhecimento sobre o assunto. A falta de estrutura é contornada com criatividade e boa vontade. No meu taller, gravamos um documentário de cerca de 50 minutos. Éramos quatro grupos de quatro ou cinco pessoas e tínhamos apenas duas equipes de cinegrafista e técnico de som. Fizemos um rodízio que funcionou bem e o resultado pode ser visto no vídeo abaixo. Além das aulas, a escola é um excelente lugar para você conhecer pessoas do mundo inteiro que respiram cinema e podem se tornar parceiros em produções futuras. Aprendi muito com meus colegas de aula, talvez tanto quanto com o professor. Uso muito os ensinamentos que adquiri lá, ainda mais trabalhando em condições aquém das ideiais. Meu lema é: se você consegue gravar um documentário em Cuba, você consegue gravá-lo em qualquer lugar.

11 Comentários

  1. The adventure of studying cinema in Cuba (2 years ago)

    [...] (Clique aqui para ler a versão em português) Viva la Revolución – Foto: Pedro Serra [...]

  2. Lydia (2 years ago)

    oLÁ, Pedro! Muito boas as informações… vou fazer uma oficina llá e adorei ler suas experiencias!!! obg por compartilhar bjs

  3. Destaques da Semana 08 | RBBV – Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem (2 years ago)

    [...] Sem Destino, por Pedro Serra: A aventura de estudar cinema em Cuba. Cuba não é a primeira opção quando se fala em estudar cinema, mas o país comandada pelos [...]

  4. Calíope (2 years ago)

    Pedro, foi muito legal ler seus relatos nesse post, vou me inscrever no blog e conferir um pouco mais do que você tem pra falar..

    Sonho em estudar cinema, ir para Cuba é uma ideia antiga, mas a qual nunca havia me entregado. Seu blog foi um belo impulso pra mim e – não sei se foi o sentimento que você colocou no texto, ou o sentimento que eu coloquei na leitura – seu final me causou arrepios e brilho nos olhos.

    “Mas e o curso? É bom? Vale a pena? A resposta é um sonoro sim…”

    Sucesso! Vou agora dar uma espiada no seu documentário, fiquei curiosa :D

  5. Paula do vale (2 years ago)

    Eai?! então tenho essa vontade looouca de fazer Cinema em Cuba, porém, ao todo nesse tempo de um mês que você ficou, quanto você gastou?
    Passagens:900 dólares
    Curso: 1200 Euro
    ..
    pra não passar perrengue nessas saídas e descobertas de outros lugares, quanto levar?

  6. Rafael (1 year ago)

    Muito legal mesmo! Voltei a pensar no assunto. Ficar 3 anos é quase impossível, mas um mês é bem realizável. Vou me planejar. Quem sabe não rola de concretizar esse sonho antigo? Abraço!

  7. Pedro Serra (1 year ago)

    Cara, vale muito a pena. É uma experiência incrível!!! Se precisar de alguma ajuda, estou à disposição.

    Abs

  8. Emerson (1 year ago)

    Pedro, pretendo tentar a prova pra escola esse ano. Graças a você fiquei mais animado. Apesar dos problemas, cinema é vida!

  9. Pedro Serra (1 year ago)

    Valeu, Emerson… que bom que o texto te ajudou. Espero que você goste de lá, porque realmente é uma experiência incrível.

    Abraços

  10. Lívia (1 year ago)

    Olá Pedro, muito bom seu “dossiê” sobre a EICTV, realmente ajudou muuuito! Quero justamente fazer a Oficina de Documentário e pretendo ir no próximo ano. Só fiquei na dúvida quanto à passagem. Não tem vôo direto do Brasil né? Você foi como? Tem como me passar mais informações sobre isso? E qual foi o gasto total que voce teve durante todo o curso? Obrigada novamente =)

  11. Felipe de Oliveira (7 months ago)

    cara, para pós graduação tem como ir?

Comments

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